Rodeio: a Novidade é o Boi

Texto de Dioclécio Luz
Jornalista, escritor, assessor do Dep. Walter Pinheiro

A Cultura Brega

A nova música sertaneja resulta de um acordo de mercado. Ela é filha da antiga cultura caipira, que falava dos campos lavrados, da roça, do gado, do cavalo. Filha bastarda que se vendeu à indústria cultural. Filha transgênica porque não é caipira, nem é pop, nem é moderna, nem é avançada, nem é arte. É só um produto.

A música sertaneja moderna, das duplas como Chitãozinho e Chororó, Zezé de Camargo e Luciano, Rick e Renner, não acrescentam nada à música popular brasileira. Não trazem nada de novo à arte. Não vêem para revolucionar, para mudar nada. Por isso, quando Leandro, da dupla Leandro e Leonardo morreu, a mídia falou de sua origem humilde, disse que era um grande sujeito, falou dos seus familiares, mas não disse o que cabia: que ele, ou seu parceiro, não acrescentou e nem acrescentam nada à música popular brasileira, à cultura nacional. A música dita breganeja é pobre em melodia e letra. Não há como se sustentar enquanto arte. Portanto, chamar de artistas os que fazem tal tipo de música é um exagero, um equívoco, e uma agressão aos verdadeiros poetas da nossa história.

O que isso tem a ver com os rodeios? Tudo.

A partir de um certo momento na nossa história, nos idos de 1970, o país sofreu um crescimento acelerado na sua produção agrícola e agrária. A Embrapa, e os grandes centros do saber, lançaram no mercado sementes de alta produtividade, no contexto da chamada “revolução a verde”. Sementes altamente produtivas mas também frágeis, exigentes de insumos, e de custos elevados para garantir o lucro. A “revolução verde” expandiu os latifúndios, quebrou as pequenas propriedades, contaminou solos e água, matou envenenados agricultores e suas famílias, fez gerar alimentos contaminados por agrotóxicos, e, finalmente, estabeleceu a dependência total do agricultor com o mercado, os fabricantes de insumos agrícolas.

Com o apoio do governo, no entanto, ela foi em frente. Expandiram-se os latifúndios. No reino animal não foi diferente. Novas espécies de bovinos, suínos, aves, foram introduzidas nos campos. Também dentro do modelo de dependência – as novas espécies, produzem mais carne ou leite, mas também são exigentes nos tratos veterinários e na alimentação. Tudo muito caro.Com este modelo, enquanto as pequenas propriedades íam à bancarrota, os grandes ficaram cada vez mais grandes. Em meados dos anos 80 se solidificava uma nossa classe, a dos novos-ricos fazendeiros, produtores de grãos ou pecuaristas. É ovo da serpente. Dela nasce a UDR.

O vazio cultural

Os novos ricos do campo, como todo novo rico, não tem cultura, não tem tradição, e sua ligação com o campo e as coisas do campo é exclusivamente mercantilista. Tanto faz morar em Goiás ou no Mato Grosso –para ele o campo é um espaço de geração de renda. E só.

O vácuo cultural estava ali - neles. Buscava-se uma cultura. Sem pátria, sem país, sem relação com o lugar, era uma gente perdida. O orgulho dessa gente está na quantidade de sacos de soja que colhe, ou na quantidade de reses de sotaque estrangeiro que percorrem suas terras sem fim. O orgulho é financeiro – é ter, acumular. O ruralista não é nada, mas não  se preocupa com isso.

Na busca de uma tradição o novo fazendeiro não podia se espelhar no antigo modelo de homem da roça. Nem como patrão nem como empregado. Como patrão, seu universo são as grandes caminhonetes importadas, motores possantes e barulhentos; ou as poderosas colheitadeiras, importadas dos Estados Unidos. Portanto, não se igualaria jamais ao fazendeirão antigo, que tinha prazer em beber leite no curral, acompanhar a marcação do gado, passear nos campos para – como naquele personagem de Érico Veríssimo – contemplar (esteticamente) o vento soprando os trigos. Os de hoje, não. Os de hoje só acham bonito quando sobe o preço da soja na bolsa Chicago.

Os fazendeirões de antigamente eram tão cruéis e mesquinhos no trato com os empregados quanto os de hoje. Mas tinham uma vantagem: tinham identidade. Se sabiam no lugar e no tempo. Tinham cultura. Sabiam apreciar um bom vinho, um bom prato, a beleza dos campos.

Os novos fazendeiros não podem se equiparar aos de antigamente. Os de hoje se acham moderninhos, ligados na Internet, merecedores de um conforto especial. A rusticidade do campo não os atrai. Não vêm entretenimento na fazenda. No máximo, passear num cavalo mangalarga, ou um PSI, pelo luxo e sofisticação, pelo esnobismo que isto representa. O prazer é a grife que faz.

Este ser sem identidade então decidiu que não poderia se encaixar num modelo caipira. Nada que lembrasse o amarelítico Jeca Tatu de Monteiro Lobato. E então, do mesmo modo como importou seu gado, suas máquinas, importou uma cultura – algo como o country. Sim, porque eles não iriam querer uma cultura que não fosse de primeiro mundo! Evidente. Sendo ricos, e devotos do neoliberalismo, adotariam a cultura perfeita para eles, a do país que é paradigma do capital, os Estados Unidos.

A importação da cultura norte-americana, é claro, manifesta-se como uma caricatura. Afinal, não se importa cultura como quem importa boi. Na verdade, o que vem é o lixo cultural, o produto da indústria cultural. Como essa gente não sabe distinguir um violino de um banjo, para eles tudo é música country. Se o músico bota um chapéu de vaqueiro na cabeça e canta uma musiquinha meio animada, num certo ritmo country ou “romântica”, então para eles já é country.

O fazendeirão nacional queria isto, uma cultura que o identificasse com o fazendeirão norte-americano; queria se parecer com seu “irmão” norte-americano. Na verdade, no processo de não-existência, ele queria existir sendo o outro, o colega de profissão, o ídolo. Isto é de Sartre, paciência. Mas a transferência sempre se configura como uma caricatura. E o que temos são fazendeirões ou peões fantasiados de cowboy.

A fantasia

Os empregados, a peãozada, também incorporou o country e seus adereços porque também queriam ser modernos. Não teriam as máquinas possantes dos seus patrões, mas poderiam adotar os trajes e os modos de um modelo cultural que já impregna a terra brasilis há muito tempo. Os filmes de cowboy, heróis das pradarias, uma gente corajosa que enfrenta índio e pega boi na unha, os cowboys já estão por aí. Além de valentes, andam armados, tem uma pontaria maravilhosa, matam gente ruim, vivem cercados de garotas bonitas,...  Então, o que faz o peão brasileiro? Renega a cultura local, que para eles é sem graça (em alguns cantos nem tem indumentária especial) e adota a nova, o modelo norte-americano, muito mais cheia de charme. É uma fantasia, uma grotesca fantasia, mas para quem também não tem nada, é o bastante.

Na verdade, há um outro elemento que é fundamental nessa história: a indústria cultural. Ela é que é o personagem principal. Foi ela que ludibriou os dois personagens secundários – fazendeiro e peão – dando-lhes a impressão de que são os personagens principais do processo. Peão e fazendeiro são os trouxas na história. A indústria forneceu-lhes a máscara e eles se fantasiaram de cowboy.  E se acham cowboys, agroboys, mas de fato são apenas joquetes, consumidores da hora.

A indústria cultural manipula bem essa gente. Pegou o lixo de fora, que é barato, poliu a embalagem texana, e vendeu tudo como country. O bagulho importado inclui a música, danças e roupas. Não há compromisso com a cultura nacional – a indústria cultural não tem nenhum compromissos com a nação, seja lá qual for.

O processo de introdução desses produtos foi cruel e facista, principalmente quando lidou com os produtos daqui. Era preciso incorporar ao processo de adoção do novo modelo cultural os produtos locais. De imediato, descartaram os velhos sertanejos (Tonico e Tinoco, por exemplo) por não se prestarem a uma exposição num shopping cultural que tem como máxima o culto do novo. Os antigos não se prestariam a incorporação de novos elementos à sua música, com a inclusão de guitarras e um visual (principalmente visual) modernos. Melodia e letras deveriam tratar do novo. Em contrapartida, as novas duplas, que não tinham a nada a perder, se prestaram a este papel farsesco de ser o que não são, construindo a nova imagem do caipira-country brasileiro. As duplas sertanejas, mais precisamente, as breganejas, adotaram um visual country (fantasiando-se de cowboy) e criaram algo que até hoje ninguém sabe definir o que é. Elas: um misto de sertanejo, country, romântico... Na verdade não são nada disso; expressam o vácuo cultural que vem à tona.

Aqui não se trata de uma fusão de ritmos, de uma elaboração artística a partir de elementos culturais (como ocorreu no mangue beat, por exemplo), mas de um arranjo de supermercado. Para estas duplas, ou suas viúvas (caso de Daniel, que perdeu João Paulo, e de Leonardo, que perdeu Leandro), tanto faz cantar isto ou aquilo. Conforme a circunstância, o repertório inclui composições do brega-romântico tradicional, a música de corno crônica ou a Jovem Guarda, de artistas pops contemporâneos, ou do velho cancioneiro sertanejo. O arranjo final é modernoso, uma meleca musical; a voz é esganiçada, o timbre é de taquara rachada, mas a apresentação utiliza raios laser e som de última geração.

O fazendeiro, que não tem formação e gosto musical, mas precisa afirmar-se enquanto classe, e existir e existir-se no tom existencial, necessita de um lustre cultural, e absorve tal produto com facilidade. Na sua ignorância musical, no seu sem-tradição crônico, é fácil absorver estas melodias facilzinhas que a indústria da música vende. O apelo está nas botas, no chapéu, na letra em português, falando de algo como amor, solidão, despedida... Os agroboys, os filhos dos fazendeiros que aprendem o inglês para dominar os negócios do pai, moderninhos, levam para casa o que entendem por country. Filhos desta limitação, desta não-tradição, continuam levando o lixo para casa, mesmo sendo importado.

O bobo da corte

O peão é só um peão nesta história. O fazendeiro ainda tem dinheiro; o peão não tem dinheiro nem cultura. O que tem de cultura é o que a mídia, a televisão, a indústria cultural, obriga-o a consumir. Forjaram seu gosto, eliminando os antigos componentes artísticos de raiz de sua cultura, substituindo-os por algo que é moderno. Sempre o moderno.

Alguma coisa, porém, não mudou com a introdução do moderno. Mais uma vez, cabe ao peão o trabalho mais difícil e perigoso, ser o bobo da corte. É ele quem monta no touro brabo e tenta se manter por alguns segundos. É ele quem tenta se segurar no lombo do cavalo. Nas arquibancadas construiu-se um ritual que sacraliza o bobo – rezas são entoadas; o hino do Brasil é cantado; garotas bonitas, como virgens ofertadas ao mártir, desfilam suas bundas e caras. De longe, instalado no camarote de luxo, o fazendeiro e sua família festejam a luta do jovem contra o touro. É o homem contra o leão na arena. É um esporte primitivo feito por quem ainda está nos primórdios de civilidade. O rodeio. Muitos peões espatifaram a coluna, substituindo o touro pela cadeira de rodas. Isto não aparece. Alguns morreram. E a festa continua.

O peão não percebeu o que ele é no rodeio. Não percebeu que é apenas aquilo que se submete ao risco, à morte ou a invalidez. Ele é o mais besta de todos. Quando a festa acaba acabam os agradinhos do patrão. Ele volta a ser o nada que sempre foi. Ele é o mais um produto do supermercado, onde se vende outros aquilos, como camisas, chapéus, selas, estribos, cavalos, cintos, entretenimento. O peão é somente um objeto de entretenimento.

O rodeio é a parte lúdica e viril do country. Os novos fazendeiros, ao se voltarem para cultura norte-americana, incorporaram um esporte que é, por natureza, violento e grotesco. Construído com material jurássico, ele representa a luta do homem contra a natureza; consequentemente, a luta contra a ecologia, aí incluindo o ser humano e o meio ambiente. O desejo do homem, de derrubar o animal ou ficar sobre o seu corpo por um tempo medido em segundos, é a reprodução de um velho paradigma, onde se toma como princípio que o ser humano é inimigo da natureza, cabendo-lhe domesticar a fera. Tal visão desequilibrada do mundo gerou um sem número de obras de artes; são livros e filmes, onde monstros de todo tipo (de Godzila a Anaconda) representam uma ameaça letal à civilização. A mensagem embutida nestas peças é “a natureza é sempre perigosa; só há um meio de você se relacionar com ela, destruindo-a”.

A cultura judaico-cristã e o pensamento de René Descartes cristalizaram este paradigma. Não faltaram argumentos bíblicos, divinos e filosóficos, para justificar a devastação da natureza. Foi baseado em argumentos deste gênero que os cowboys assassinaram todos os índios de sua terra - os ditos selvagens, gente com cara de gente. Estes “heróis” norte-americanos dizimaram florestas, destruíram rios, mataram o que encontraram pela frente e quase se mataram. Eram grossos e estúpidos, mas foram mitificados pela indústria do cinema, como machões e cavalheiros.

O ato primitivo

O rodeio é sequência deste ato. Ele é uma expressão da violência. Do lado de dentro, no cerne, contra a natureza, ou seja, contra si próprio; por fora, a mais explícita é contra o animal. Para deixá-lo irritado, os responsáveis agridem-no com pontapés, choques elétricos, apertões no sedem (o laço de couro ou corda, com arames, apertado sobre os genitais),  jogam produtos químicos no ânus... Enfim, ele é deixado irritado, “selvagem”. Quando é solto do brete, o bicho corcoveia alucinado, com o peão no dorso.

A farsa também está aí. É uma pretensa luta do homem com a natureza, embutida no arquétipo cultural dos que se deleitam com o show. O animal não está lutando contra quem está no seu dorso, ele está irritado com as dores e por isso salta de um lado para o outro.

O rodeio se assemelha a caça, que é, também, uma atividade do homem primitivo. A caça também trás este signo da luta do homem x natureza. O prazer do caçador é destruir, matar a natureza, a caça; ver o sangue escorrendo de sua presa. Mas a caçada também é uma farsa porque a batalha é simulada. Não é um jogo porque os dois – o homem e a caça -  não estão em condições de igualdade. A única coisa que a presa pode fazer é fugir. O esporte, portanto, se é que é que se pode chamar de esporte, é covarde – é o animal contra uma carabina. Ao contrário do rodeio, o participante da caça não corre risco de vida, e muito menos de ficar paralítico. Exatamente por não trazer risco, por ser uma falsa luta, é um esporte para os patrões. O peão, o empregado, só olha, só serve para carregar os apetrechos do corajoso caçador.

O country, junto com o rodeio e suas demais tralhas, não existe fora do projeto de propagação da cultura imperialista norte-americana. Há uma intenção explícita do Departamento de Defesa dos Estados Unidos de dominar os demais países, em especial os do terceiro mundo. O domínio se faz pelas armas ou pela imposição cultural. É muito mais fácil dominar um país que consome produtos norte-americanos. Não há necessidade de uso de armas para mandar num povo que só consome produtos norte-americanos, aí incluindo cinema, televisão, refrigerantes, roupas, música,... Se um povo está trajado como um norte-americano, se consome coisas tão boas do país vizinho, não pode ser inimigo dele. Ser inimigo do outro que é modelo é ser esquizofrênico, é odiar-se no melhor, no modelo. O cidadão comum não consegue odiar os Estados Unidos de Michael Jackson, ou de Tom Cruise, ou de John Kennedy. Mesmo que Kennedy tenha sido um canalha, um grande bandido? Quem vai acreditar que ele estimulou a guerra do Vietnã, uma invasão frustrada à Cuba, o patrocínio de entidades de direita no Brasil que forjaram candidatos? Ele, quem sempre foi tão bonzinho? Ele que, como um herói, foi covardemente assassinado em Dallas?

Ó raite

O imperialismo cultural, no entanto, sempre esteve na pauta estratégica. É extremamente relevante para eles a absorção por um país periférico como o Brasil de um elemento tradicional norte-americano como é o country e o rodeio. Mandam cultura norte-americana e têm nas mãos os negócios  e a cultura do povo colonizado. Sempre fizeram assim. A novidade agora é o rodeio, é o boi. 
Na verdade, a priori, a introdução de novos elementos (estrangeiros ou não) na cultura é bom para sua evolução. Cultura é algo extremamente orgânico. Não tem sentido colocar determinada expressão cultural num cofre, tornando-a imune ao sincretismo. A cultura muda com o tempo e com seus acasalamentos naturais. Ao longo da história foi assim. É natural que isto ocorra.

Nos últimos anos, porém, com o crescimento da indústria cultural, a introdução de novas moléculas culturais foi administrada por interesses destas empresas. Grupos empresariais, as gravadoras e a mídia, mais precisamente, introduziram novos elementos, impondo sua aceitação à sociedade como se fossem elementos culturais nativos. E tudo isso foi feito de um modo brusco, na velocidade dos negócios, na velocidade da moda, provocando um inevitável choque cultural. Em instantes, o povo foi obrigado a abandonar sua raiz e adotar a copa da nova árvore de plástico.

O country e o rodeio foram colocados na gôndola de supermercado como se fosse arte e cultura. Pegou o povo num momento de baixa-estima, disposto a segurar uma onda que lhe parecesse nova, moderna, de primeiro mundo. A embalagem é moderna, mas o conteúdo é a anti-arte. A mídia contribuiu para instalar o bom equívoco no povo. Chitãozinho e Chororó, Rick e Renner, cowboys e country, foram incorporados ao gosto popular. Diz-se agora: é deles que o povo gosta; que o povo tem razão; o povo é humilde, o povo também tem o direito de ter este gosto. Os críticos foram escorraçados sob o argumento de serem arrogantes diante do gosto popular. Na televisão, nos cadernos de cultura, misturou-se Chico Buarque com Zezé de Camargo; Milton Nascimento com Milionário e Zé Rico... As rádios e TVs – parte da indústria cultural - continuaram monopolizando os espaços com os breganejos, a mediocridade mais bruta, mas ao colocar os artistas e os não-artistas juntos, a mídia mostra ao povo que artista é artista, é tudo igual.

Erosão cultural

A nova cultura não foi pensada pelo povo, não foi analisada por ele, não foi visto o que lhe cabe, se presta ou não. Ele teve que engolir e ser country. Em algumas regiões do país, nas rádios só toca country ou breganejo. Não há mais nada além disso? O que foi feito das modinhas, dos aboios, dos rojões, das cantorias do povo de antigamente? Ora, como só há uma moda, uma canção tocando no rádio, ocupando todos os espaços, é natural que o restante das manifestações desapareça. É natural que ocorra uma erosão cultural. Isto é bom para o Brasil?

A indústria cultural fez brotar um mapa de manifestações que ocupam totalmente o espaço de difusão. Ao fazer isto, bloqueia e elimina as outras manifestações. Da Bahia, por exemplo, veio a axé-music, ou “bunda-music”. Ora, este tipo de música ficou conhecido como “música baiana”. E não é.  Música baiana compreende mais de uma centena de manifestações, incluindo coco, baião, repente, o canto de Elomar,... Um empresário do Ceará criou uma dezena de bandas que tocam a oxente-music, ou “forró-bunda”. E o povo não escuta mais Belchior, Ednardo, Humberto Pinho,... O povo agora acha que forró bom é este moderno, cantado por grupos deste empresário, como é o caso da banda “Mastruz com leite”. Não sabem que este tipo de forró existe há muito tempo no Nordeste, e ficava reservado aos cabarés, os puteiros mais bregas, exatamente por causa da sua má qualidade, de sua formação ser uma caricatura de banda de festa com metida a tocar baião.

No Nordeste existem uma centena de outras novas manifestações, ricas, belas, originais, que nem o povo de lá conhece! Na Amazônia criaram a música do boi de Parintins, onde a banda se fantasia de índio Apache, rebola como a turma da bunda música, e suas letras falam da selva como se escrita por um suíço radicado na Holanda.  A banda “Carrapicho” faz sucesso. Mas o que é isso? É Brasil? É Amazônia?

E tem o pagode, que é feito por um bando de rapazes arrumadinhos cantando (mal) algo que parece um samba acomodado. Isto é samba? O que é? Nada. Como os outros gêneros criados para a moda, não passa de mais um produto colocado na gôndola do supermercado.

Todas essas manifestações, incluindo o country e a música pop-sertaneja, têm em comum o fato de serem pobres, repetitivas, superficiais. Elas não sobrevivem a nenhuma análise mais rigorosa sobre sua qualidade, e muito menos de contribuição à arte popular brasileira. Pior, ela ocultam o Brasil real, que tem, provavelmente, a maior diversidade cultural do mundo. É uma capa de plástico jogada sobre o capim. Muitos artistas populares brasileiros tiveram que abandonar sua arte, e despachar-se por outros rumos profissionais por conta desta falta de espaço para mostrar o belo. Outros, é até compreensível, tiveram que guardar o talento no sótão, e adotar a música da moda como jeito de sobreviver.

Aparentemente a história é cega e surda. Mas, na prática, ela sempre guarda o que viu e escutou. E cobra. Ela vai cobrar daqueles que fazem o presente a omissão diante do estrago cultural feito pelos mesmos personagens que desempregam, que vendem o país ao estrangeiro. A análise cultural deve estar dentro de uma análise de conjuntura. Não se pode propor uma novo modelo de economia, um novo modelo de reforma agrária, um novo modelo de país, mantendo a trilha sonora de hoje.

O country, o rodeio, esta mania de se fantasiar de cowboy, é apenas mais uma manifestação de um modelo econômico e de sociedade. Neste modelo uma minoria detém o poder sobre a riqueza nacional, aí incluindo sua cultura, suas formas de expressão artística. Este modelo atua para substituir o que há de mais rico no país por algo que seja alienante e pobre, que promova a dispersão da população, que fragmente a sociedade, enfim, que substitua a condição de cidadão pela de consumidor. Aceitar imposições culturais como esta significa aceitar todo modelo que o povo organizado, os partidos de oposição e as pessoas de bom senso condenam. Considerar o rodeio, ou o country (a cultura e suas transgressões) como algo isolado da questão econômica ou política é um ato de inocência que gera aplausos da elite. Este tipo de ocupação cultural – burra, pobre, alienante, estrangeira, superficial – visa fragmentar a sociedade. Aprovar isto é ficar do lado deles. É isto o que eles querem.

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