A
nova música sertaneja resulta de um acordo de mercado.
Ela é filha da antiga cultura caipira, que falava dos campos
lavrados, da roça, do gado, do cavalo. Filha bastarda que
se vendeu à indústria cultural. Filha transgênica
porque não é caipira, nem é pop, nem é
moderna, nem é avançada, nem é arte. É
só um produto.
A
música sertaneja moderna, das duplas como Chitãozinho
e Chororó, Zezé de Camargo e Luciano, Rick e Renner,
não acrescentam nada à música popular brasileira.
Não trazem nada de novo à arte. Não vêem
para revolucionar, para mudar nada. Por isso, quando Leandro,
da dupla Leandro e Leonardo morreu, a mídia falou de sua
origem humilde, disse que era um grande sujeito, falou dos seus
familiares, mas não disse o que cabia: que ele, ou seu
parceiro, não acrescentou e nem acrescentam nada à
música popular brasileira, à cultura nacional. A
música dita breganeja é pobre em melodia e letra.
Não há como se sustentar enquanto arte. Portanto,
chamar de artistas os que fazem tal tipo de música é
um exagero, um equívoco, e uma agressão aos verdadeiros
poetas da nossa história.
O
que isso tem a ver com os rodeios? Tudo.
A
partir de um certo momento na nossa história, nos idos
de 1970, o país sofreu um crescimento acelerado na sua
produção agrícola e agrária. A Embrapa,
e os grandes centros do saber, lançaram no mercado sementes
de alta produtividade, no contexto da chamada ìrevolução
a verdeî. Sementes altamente produtivas mas também frágeis,
exigentes de insumos, e de custos elevados para garantir o lucro.
A ìrevolução verdeî expandiu os latifúndios,
quebrou as pequenas propriedades, contaminou solos e água,
matou envenenados agricultores e suas famílias, fez gerar
alimentos contaminados por agrotóxicos, e, finalmente,
estabeleceu a dependência total do agricultor com o mercado,
os fabricantes de insumos agrícolas.
Com
o apoio do governo, no entanto, ela foi em frente. Expandiram-se
os latifúndios. No reino animal não foi diferente.
Novas espécies de bovinos, suínos, aves, foram introduzidas
nos campos. Também dentro do modelo de dependência
ñ as novas espécies, produzem mais carne ou leite, mas
também são exigentes nos tratos veterinários
e na alimentação. Tudo muito caro.Com este modelo,
enquanto as pequenas propriedades íam à bancarrota,
os grandes ficaram cada vez mais grandes. Em meados dos anos 80
se solidificava uma nossa classe, a dos novos-ricos fazendeiros,
produtores de grãos ou pecuaristas. É ovo da serpente.
Dela nasce a UDR.
O
vazio cultural
Os
novos ricos do campo, como todo novo rico, não tem cultura,
não tem tradição, e sua ligação
com o campo e as coisas do campo é exclusivamente mercantilista.
Tanto faz morar em Goiás ou no Mato Grosso ñpara ele o
campo é um espaço de geração de renda.
E só.
O
vácuo cultural estava ali - neles. Buscava-se uma cultura.
Sem pátria, sem país, sem relação
com o lugar, era uma gente perdida. O orgulho dessa gente está
na quantidade de sacos de soja que colhe, ou na quantidade de
reses de sotaque estrangeiro que percorrem suas terras sem fim.
O orgulho é financeiro ñ é ter, acumular. O ruralista
não é nada, mas não se preocupa com
isso.
Na
busca de uma tradição o novo fazendeiro não
podia se espelhar no antigo modelo de homem da roça. Nem
como patrão nem como empregado. Como patrão, seu
universo são as grandes caminhonetes importadas, motores
possantes e barulhentos; ou as poderosas colheitadeiras, importadas
dos Estados Unidos. Portanto, não se igualaria jamais ao
fazendeirão antigo, que tinha prazer em beber leite no
curral, acompanhar a marcação do gado, passear nos
campos para ñ como naquele personagem de Érico Veríssimo
ñ contemplar (esteticamente) o vento soprando os trigos. Os de
hoje, não. Os de hoje só acham bonito quando sobe
o preço da soja na bolsa Chicago.
Os
fazendeirões de antigamente eram tão cruéis
e mesquinhos no trato com os empregados quanto os de hoje. Mas
tinham uma vantagem: tinham identidade. Se sabiam no lugar e no
tempo. Tinham cultura. Sabiam apreciar um bom vinho, um bom prato,
a beleza dos campos.
Os
novos fazendeiros não podem se equiparar aos de antigamente.
Os de hoje se acham moderninhos, ligados na Internet, merecedores
de um conforto especial. A rusticidade do campo não os
atrai. Não vêm entretenimento na fazenda. No máximo,
passear num cavalo mangalarga, ou um PSI, pelo luxo e sofisticação,
pelo esnobismo que isto representa. O prazer é a grife
que faz.
Este
ser sem identidade então decidiu que não poderia
se encaixar num modelo caipira. Nada que lembrasse o amarelítico
Jeca Tatu de Monteiro Lobato. E então, do mesmo modo como
importou seu gado, suas máquinas, importou uma cultura
ñ algo como o country. Sim, porque eles não iriam querer
uma cultura que não fosse de primeiro mundo! Evidente.
Sendo ricos, e devotos do neoliberalismo, adotariam a cultura
perfeita para eles, a do país que é paradigma do
capital, os Estados Unidos.
A
importação da cultura norte-americana, é
claro, manifesta-se como uma caricatura. Afinal, não se
importa cultura como quem importa boi. Na verdade, o que vem é
o lixo cultural, o produto da indústria cultural. Como
essa gente não sabe distinguir um violino de um banjo,
para eles tudo é música country. Se o músico
bota um chapéu de vaqueiro na cabeça e canta uma
musiquinha meio animada, num certo ritmo country ou ìromânticaî,
então para eles já é country.
O
fazendeirão nacional queria isto, uma cultura que o identificasse
com o fazendeirão norte-americano; queria se parecer com
seu ìirmãoî norte-americano. Na verdade, no processo de
não-existência, ele queria existir sendo o outro,
o colega de profissão, o ídolo. Isto é de
Sartre, paciência. Mas a transferência sempre se configura
como uma caricatura. E o que temos são fazendeirões
ou peões fantasiados de cowboy.
A
fantasia
Os
empregados, a peãozada, também incorporou o country
e seus adereços porque também queriam ser modernos.
Não teriam as máquinas possantes dos seus patrões,
mas poderiam adotar os trajes e os modos de um modelo cultural
que já impregna a terra brasilis há muito tempo.
Os filmes de cowboy, heróis das pradarias, uma gente corajosa
que enfrenta índio e pega boi na unha, os cowboys já
estão por aí. Além de valentes, andam armados,
tem uma pontaria maravilhosa, matam gente ruim, vivem cercados
de garotas bonitas,... Então, o que faz o peão
brasileiro? Renega a cultura local, que para eles é sem
graça (em alguns cantos nem tem indumentária especial)
e adota a nova, o modelo norte-americano, muito mais cheia de
charme. É uma fantasia, uma grotesca fantasia, mas para
quem também não tem nada, é o bastante.
Na
verdade, há um outro elemento que é fundamental
nessa história: a indústria cultural. Ela é
que é o personagem principal. Foi ela que ludibriou os
dois personagens secundários ñ fazendeiro e peão
ñ dando-lhes a impressão de que são os personagens
principais do processo. Peão e fazendeiro são os
trouxas na história. A indústria forneceu-lhes a
máscara e eles se fantasiaram de cowboy. E se acham
cowboys, agroboys, mas de fato são apenas joquetes, consumidores
da hora.
A
indústria cultural manipula bem essa gente. Pegou o lixo
de fora, que é barato, poliu a embalagem texana, e vendeu
tudo como country. O bagulho importado inclui a música,
danças e roupas. Não há compromisso com a
cultura nacional ñ a indústria cultural não tem
nenhum compromissos com a nação, seja lá
qual for.
O
processo de introdução desses produtos foi cruel
e facista, principalmente quando lidou com os produtos daqui.
Era preciso incorporar ao processo de adoção do
novo modelo cultural os produtos locais. De imediato, descartaram
os velhos sertanejos (Tonico e Tinoco, por exemplo) por não
se prestarem a uma exposição num shopping cultural
que tem como máxima o culto do novo. Os antigos não
se prestariam a incorporação de novos elementos
à sua música, com a inclusão de guitarras
e um visual (principalmente visual) modernos. Melodia e letras
deveriam tratar do novo. Em contrapartida, as novas duplas, que
não tinham a nada a perder, se prestaram a este papel farsesco
de ser o que não são, construindo a nova imagem
do caipira-country brasileiro. As duplas sertanejas, mais precisamente,
as breganejas, adotaram um visual country (fantasiando-se de cowboy)
e criaram algo que até hoje ninguém sabe definir
o que é. Elas: um misto de sertanejo, country, romântico...
Na verdade não são nada disso; expressam o vácuo
cultural que vem à tona.
Aqui
não se trata de uma fusão de ritmos, de uma elaboração
artística a partir de elementos culturais (como ocorreu
no mangue beat, por exemplo), mas de um arranjo de supermercado.
Para estas duplas, ou suas viúvas (caso de Daniel, que
perdeu João Paulo, e de Leonardo, que perdeu Leandro),
tanto faz cantar isto ou aquilo. Conforme a circunstância,
o repertório inclui composições do brega-romântico
tradicional, a música de corno crônica ou a Jovem
Guarda, de artistas pops contemporâneos, ou do velho cancioneiro
sertanejo. O arranjo final é modernoso, uma meleca musical;
a voz é esganiçada, o timbre é de taquara
rachada, mas a apresentação utiliza raios laser
e som de última geração.
O
fazendeiro, que não tem formação e gosto
musical, mas precisa afirmar-se enquanto classe, e existir e existir-se
no tom existencial, necessita de um lustre cultural, e absorve
tal produto com facilidade. Na sua ignorância musical, no
seu sem-tradição crônico, é fácil
absorver estas melodias facilzinhas que a indústria da
música vende. O apelo está nas botas, no chapéu,
na letra em português, falando de algo como amor, solidão,
despedida... Os agroboys, os filhos dos fazendeiros que aprendem
o inglês para dominar os negócios do pai, moderninhos,
levam para casa o que entendem por country. Filhos desta limitação,
desta não-tradição, continuam levando o lixo
para casa, mesmo sendo importado.
O
bobo da corte
O
peão é só um peão nesta história.
O fazendeiro ainda tem dinheiro; o peão não tem
dinheiro nem cultura. O que tem de cultura é o que a mídia,
a televisão, a indústria cultural, obriga-o a consumir.
Forjaram seu gosto, eliminando os antigos componentes artísticos
de raiz de sua cultura, substituindo-os por algo que é
moderno. Sempre o moderno.
Alguma
coisa, porém, não mudou com a introdução
do moderno. Mais uma vez, cabe ao peão o trabalho mais
difícil e perigoso, ser o bobo da corte. É ele quem
monta no touro brabo e tenta se manter por alguns segundos. É
ele quem tenta se segurar no lombo do cavalo. Nas arquibancadas
construiu-se um ritual que sacraliza o bobo ñ rezas são
entoadas; o hino do Brasil é cantado; garotas bonitas,
como virgens ofertadas ao mártir, desfilam suas bundas
e caras. De longe, instalado no camarote de luxo, o fazendeiro
e sua família festejam a luta do jovem contra o touro.
É o homem contra o leão na arena. É um esporte
primitivo feito por quem ainda está nos primórdios
de civilidade. O rodeio. Muitos peões espatifaram a coluna,
substituindo o touro pela cadeira de rodas. Isto não aparece.
Alguns morreram. E a festa continua.
O
peão não percebeu o que ele é no rodeio.
Não percebeu que é apenas aquilo que se submete
ao risco, à morte ou a invalidez. Ele é o mais besta
de todos. Quando a festa acaba acabam os agradinhos do patrão.
Ele volta a ser o nada que sempre foi. Ele é o mais um
produto do supermercado, onde se vende outros aquilos, como camisas,
chapéus, selas, estribos, cavalos, cintos, entretenimento.
O peão é somente um objeto de entretenimento.
O
rodeio é a parte lúdica e viril do country. Os novos
fazendeiros, ao se voltarem para cultura norte-americana, incorporaram
um esporte que é, por natureza, violento e grotesco. Construído
com material jurássico, ele representa a luta do homem
contra a natureza; consequentemente, a luta contra a ecologia,
aí incluindo o ser humano e o meio ambiente. O desejo do
homem, de derrubar o animal ou ficar sobre o seu corpo por um
tempo medido em segundos, é a reprodução
de um velho paradigma, onde se toma como princípio que
o ser humano é inimigo da natureza, cabendo-lhe domesticar
a fera. Tal visão desequilibrada do mundo gerou um sem
número de obras de artes; são livros e filmes, onde
monstros de todo tipo (de Godzila a Anaconda) representam uma
ameaça letal à civilização. A mensagem
embutida nestas peças é ìa natureza é sempre
perigosa; só há um meio de você se relacionar
com ela, destruindo-aî.
A
cultura judaico-cristã e o pensamento de René Descartes
cristalizaram este paradigma. Não faltaram argumentos bíblicos,
divinos e filosóficos, para justificar a devastação
da natureza. Foi baseado em argumentos deste gênero que
os cowboys assassinaram todos os índios de sua terra -
os ditos selvagens, gente com cara de gente. Estes ìheróisî
norte-americanos dizimaram florestas, destruíram rios,
mataram o que encontraram pela frente e quase se mataram. Eram
grossos e estúpidos, mas foram mitificados pela indústria
do cinema, como machões e cavalheiros.
O
ato primitivo
O
rodeio é sequência deste ato. Ele é uma expressão
da violência. Do lado de dentro, no cerne, contra a natureza,
ou seja, contra si próprio; por fora, a mais explícita
é contra o animal. Para deixá-lo irritado, os responsáveis
agridem-no com pontapés, choques elétricos, apertões
no sedem (o laço de couro ou corda, com arames, apertado
sobre os genitais), jogam produtos químicos no ânus...
Enfim, ele é deixado irritado, ìselvagemî. Quando é
solto do brete, o bicho corcoveia alucinado, com o peão
no dorso.
A
farsa também está aí. É uma pretensa
luta do homem com a natureza, embutida no arquétipo cultural
dos que se deleitam com o show. O animal não está
lutando contra quem está no seu dorso, ele está
irritado com as dores e por isso salta de um lado para o outro.
O
rodeio se assemelha a caça, que é, também,
uma atividade do homem primitivo. A caça também
trás este signo da luta do homem x natureza. O prazer do
caçador é destruir, matar a natureza, a caça;
ver o sangue escorrendo de sua presa. Mas a caçada também
é uma farsa porque a batalha é simulada. Não
é um jogo porque os dois ñ o homem e a caça -
não estão em condições de igualdade.
A única coisa que a presa pode fazer é fugir. O
esporte, portanto, se é que é que se pode chamar
de esporte, é covarde ñ é o animal contra uma carabina.
Ao contrário do rodeio, o participante da caça não
corre risco de vida, e muito menos de ficar paralítico.
Exatamente por não trazer risco, por ser uma falsa luta,
é um esporte para os patrões. O peão, o empregado,
só olha, só serve para carregar os apetrechos do
corajoso caçador.
O
country, junto com o rodeio e suas demais tralhas, não
existe fora do projeto de propagação da cultura
imperialista norte-americana. Há uma intenção
explícita do Departamento de Defesa dos Estados Unidos
de dominar os demais países, em especial os do terceiro
mundo. O domínio se faz pelas armas ou pela imposição
cultural. É muito mais fácil dominar um país
que consome produtos norte-americanos. Não há necessidade
de uso de armas para mandar num povo que só consome produtos
norte-americanos, aí incluindo cinema, televisão,
refrigerantes, roupas, música,... Se um povo está
trajado como um norte-americano, se consome coisas tão
boas do país vizinho, não pode ser inimigo dele.
Ser inimigo do outro que é modelo é ser esquizofrênico,
é odiar-se no melhor, no modelo. O cidadão comum
não consegue odiar os Estados Unidos de Michael Jackson,
ou de Tom Cruise, ou de John Kennedy. Mesmo que Kennedy tenha
sido um canalha, um grande bandido? Quem vai acreditar que ele
estimulou a guerra do Vietnã, uma invasão frustrada
à Cuba, o patrocínio de entidades de direita no
Brasil que forjaram candidatos? Ele, quem sempre foi tão
bonzinho? Ele que, como um herói, foi covardemente assassinado
em Dallas?
Ó
raite
O
imperialismo cultural, no entanto, sempre esteve na pauta estratégica.
É extremamente relevante para eles a absorção
por um país periférico como o Brasil de um elemento
tradicional norte-americano como é o country e o rodeio.
Mandam cultura norte-americana e têm nas mãos os
negócios e a cultura do povo colonizado. Sempre fizeram
assim. A novidade agora é o rodeio, é o boi.
Na verdade, a priori, a introdução de novos elementos
(estrangeiros ou não) na cultura é bom para sua
evolução. Cultura é algo extremamente orgânico.
Não tem sentido colocar determinada expressão cultural
num cofre, tornando-a imune ao sincretismo. A cultura muda com
o tempo e com seus acasalamentos naturais. Ao longo da história
foi assim. É natural que isto ocorra.
Nos
últimos anos, porém, com o crescimento da indústria
cultural, a introdução de novas moléculas
culturais foi administrada por interesses destas empresas. Grupos
empresariais, as gravadoras e a mídia, mais precisamente,
introduziram novos elementos, impondo sua aceitação
à sociedade como se fossem elementos culturais nativos.
E tudo isso foi feito de um modo brusco, na velocidade dos negócios,
na velocidade da moda, provocando um inevitável choque
cultural. Em instantes, o povo foi obrigado a abandonar sua raiz
e adotar a copa da nova árvore de plástico.
O
country e o rodeio foram colocados na gôndola de supermercado
como se fosse arte e cultura. Pegou o povo num momento de baixa-estima,
disposto a segurar uma onda que lhe parecesse nova, moderna, de
primeiro mundo. A embalagem é moderna, mas o conteúdo
é a anti-arte. A mídia contribuiu para instalar
o bom equívoco no povo. Chitãozinho e Chororó,
Rick e Renner, cowboys e country, foram incorporados ao gosto
popular. Diz-se agora: é deles que o povo gosta; que o
povo tem razão; o povo é humilde, o povo também
tem o direito de ter este gosto. Os críticos foram escorraçados
sob o argumento de serem arrogantes diante do gosto popular. Na
televisão, nos cadernos de cultura, misturou-se Chico Buarque
com Zezé de Camargo; Milton Nascimento com Milionário
e Zé Rico... As rádios e TVs ñ parte da indústria
cultural - continuaram monopolizando os espaços com os
breganejos, a mediocridade mais bruta, mas ao colocar os artistas
e os não-artistas juntos, a mídia mostra ao povo
que artista é artista, é tudo igual.
Erosão
cultural
A
nova cultura não foi pensada pelo povo, não foi
analisada por ele, não foi visto o que lhe cabe, se presta
ou não. Ele teve que engolir e ser country. Em algumas
regiões do país, nas rádios só toca
country ou breganejo. Não há mais nada além
disso? O que foi feito das modinhas, dos aboios, dos rojões,
das cantorias do povo de antigamente? Ora, como só há
uma moda, uma canção tocando no rádio, ocupando
todos os espaços, é natural que o restante das manifestações
desapareça. É natural que ocorra uma erosão
cultural. Isto é bom para o Brasil?
A
indústria cultural fez brotar um mapa de manifestações
que ocupam totalmente o espaço de difusão. Ao fazer
isto, bloqueia e elimina as outras manifestações.
Da Bahia, por exemplo, veio a axé-music, ou ìbunda-musicî.
Ora, este tipo de música ficou conhecido como ìmúsica
baianaî. E não é. Música baiana compreende
mais de uma centena de manifestações, incluindo
coco, baião, repente, o canto de Elomar,... Um empresário
do Ceará criou uma dezena de bandas que tocam a oxente-music,
ou ìforró-bundaî. E o povo não escuta mais Belchior,
Ednardo, Humberto Pinho,... O povo agora acha que forró
bom é este moderno, cantado por grupos deste empresário,
como é o caso da banda ìMastruz com leiteî. Não
sabem que este tipo de forró existe há muito tempo
no Nordeste, e ficava reservado aos cabarés, os puteiros
mais bregas, exatamente por causa da sua má qualidade,
de sua formação ser uma caricatura de banda de festa
com metida a tocar baião.
No
Nordeste existem uma centena de outras novas manifestações,
ricas, belas, originais, que nem o povo de lá conhece!
Na Amazônia criaram a música do boi de Parintins,
onde a banda se fantasia de índio Apache, rebola como a
turma da bunda música, e suas letras falam da selva como
se escrita por um suíço radicado na Holanda.
A banda ìCarrapichoî faz sucesso. Mas o que é isso? É
Brasil? É Amazônia?
E
tem o pagode, que é feito por um bando de rapazes arrumadinhos
cantando (mal) algo que parece um samba acomodado. Isto é
samba? O que é? Nada. Como os outros gêneros criados
para a moda, não passa de mais um produto colocado na gôndola
do supermercado.
Todas
essas manifestações, incluindo o country e a música
pop-sertaneja, têm em comum o fato de serem pobres, repetitivas,
superficiais. Elas não sobrevivem a nenhuma análise
mais rigorosa sobre sua qualidade, e muito menos de contribuição
à arte popular brasileira. Pior, ela ocultam o Brasil real,
que tem, provavelmente, a maior diversidade cultural do mundo.
É uma capa de plástico jogada sobre o capim. Muitos
artistas populares brasileiros tiveram que abandonar sua arte,
e despachar-se por outros rumos profissionais por conta desta
falta de espaço para mostrar o belo. Outros, é até
compreensível, tiveram que guardar o talento no sótão,
e adotar a música da moda como jeito de sobreviver.
Aparentemente
a história é cega e surda. Mas, na prática,
ela sempre guarda o que viu e escutou. E cobra. Ela vai cobrar
daqueles que fazem o presente a omissão diante do estrago
cultural feito pelos mesmos personagens que desempregam, que vendem
o país ao estrangeiro. A análise cultural deve estar
dentro de uma análise de conjuntura. Não se pode
propor uma novo modelo de economia, um novo modelo de reforma
agrária, um novo modelo de país, mantendo a trilha
sonora de hoje.
O
country, o rodeio, esta mania de se fantasiar de cowboy, é
apenas mais uma manifestação de um modelo econômico
e de sociedade. Neste modelo uma minoria detém o poder
sobre a riqueza nacional, aí incluindo sua cultura, suas
formas de expressão artística. Este modelo atua
para substituir o que há de mais rico no país por
algo que seja alienante e pobre, que promova a dispersão
da população, que fragmente a sociedade, enfim,
que substitua a condição de cidadão pela
de consumidor. Aceitar imposições culturais como
esta significa aceitar todo modelo que o povo organizado, os partidos
de oposição e as pessoas de bom senso condenam.
Considerar o rodeio, ou o country (a cultura e suas transgressões)
como algo isolado da questão econômica ou política
é um ato de inocência que gera aplausos da elite.
Este tipo de ocupação cultural ñ burra, pobre, alienante,
estrangeira, superficial ñ visa fragmentar a sociedade. Aprovar
isto é ficar do lado deles. É isto o que eles querem.
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