O que se segue é
para estimular idéias sobre o dilema de se desenvolver
técnicas psicomotoras necessárias para cirurgia em
medicina veterinária, sem o recurso de "prática" em
animais não humanos.A intenção não é
mostrar um método preciso de como desenvolver essas
técnicas, mas sim, de mostrar que é possível
obtê-las sem matar animais não humanos saudáveis
e incitar aqueles que estão encarando esse dilema, a expressarem
sua oposicão, exigindo permissão para que possam trabalhar
em direção a uma solução (alternativa).
É preciso que
se entenda desde o princípio, que o treinamento cirúrgico
que os estudantes de medicina veterinaria recebem para poderem
se graduar, não faz deles, cirurgiões. Na melhor das
hipóteses, para a média dos estudantes isso pode aumentar
auto-confiança, já que isso os inicia na complexidade
de cirurgia. Entretanto, também existe o potencial
de reduzir a confiança dos estudantes devido à confusão
e frustração que eles podem vir a experimentar, pela
exposição muito limitada que recebem durante o curso.
Por outro lado, isso pode inspirar um excesso de confiança,
colocando o estudante em séria desvantagem para os pacientes
e clientes após a gradução, até que
a experiência melhore as habilidades técnicas do recém-formado.
Apesar desses problemas
não virem a ser simplesmente transpostos pela instituição
de alternativas, algumas delas -como por exemplo, objetos inanimados
-podem conduzir a considerável aumento de exposicao às
técnicas basicas, que são fundamentais para os procedimentos
mais complexos (1, 3, 5, 8, 10). Como esses materiais não
estão associados ao problema logístico dos cuidados
que o uso de animais não humanos requerem, eles podem ser
usados, repetidamente, de acordo com a conveniência do estudante.Experiência
aumentada com modelos de espuma pneumática para treinamento
de suturas e tábuas para treinamento de pontos não
podem ajudar mas melhoram a proficiência, desta forma tornando
qualquer experiência subsequente com animal não humano
vivo muito mais compensatória.(12, 13).
Como um exemplo, na
Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Estadual
de Ohio (Ohio State University College of Veterinary Medicine),
o Dr. Dan Smeak ensinou os estudantes como ligar os vasos sangüíneos
usando almofadas de espuma e barbante vermelho para simular incisões.
Ele e seus colaboradores observaram que estudantes que praticavam
nesses modelos inanimados, sairam- se melhor quando expostos à
situação de cirurgia real do que estudantes que aprenderam
nos próprios animais (12, 13).
O fato de que, em determinado
momento tenha-se que usar animais não humanos para o aprimoramento
das técnicas necessárias para se realizar cirurgias,
não quer dizer que se tenha que matar propositadamente o
animal nesse processo. Com relação a isso, a
maneira mais comum pela qual técnicas cirurgicas são
ensinadas para os estudantes de medicina veterinária neste
país, é eticamente indefensável. Animais não
humanos retirados de abrigos ou comprados de criadores ou negociantes
são usados e mortos como se fossem mercadorias descartáveis.
Isso está em contraste total com o que acontece em medicina
humana, onde os que aspiram a se tornar médicos não
matam seres humanos (nem não humanos, como está
se tornando realidade cada vez mais crescente), em nome da educação.
A matança de
animais não humanos em escolas de medicina veterinária
continua, infelizmente, por hábito e conveniência,
não porque ela seja pedagogicamente necessária. Há
muitas alternativas para substituir a matança de animais
não humanos em treino cirúrgico. Lembremos que as
escolas de medicina veterinária britânicas usam cadáveres
no processo de aprendizado. O fato de que muitos desses formandos
britânicos competem com sucesso na qualidade de residentes
ou professores universitários neste país ), reflete
e evidencia nosso respeito por suas habilidades. Além delas,
a Escola de Medicina Veterinária da Universidade de Utrecht,
na Holanda, não fere ou mata nenhum animal não humano
no treinamento cirúrgico ou para outra prática.
O que é particularmente pertinente aqui, é que essa
Universidade é totalmente credenciada/reconhecida pela
American Veterinary Medical Association (Associação
Americana de Médicos Veterinários) - (AVMA)”.
Entretanto, quando estudantes
requerem alternativas para não matarem animais não
humanos saudáveis, são recebidos com ridículo
e sarcasmo. Seus estilos de vida pessoais têm sido atacados
como se absoluta consistência fosse requerida, para que uma
premissa moral tenha credibilidade. Algumas faculdades, que
aparentemente apenas "ouviram falar" na palavra alternativa, fizeram
afirmações sarcásticas rebatendo que ninguém
pode aprender cirurgia usando vegetais. Para alguns estudantes também
foi dito que deveriam reconsiderar sua escolha como carreira. Esse
tipo de comportamento de rebaixar os estudantes é anti
profissional e desestimula a busca por métodos alternativos
para um ensino mais compassivo.
“Qualquer coisa que
envolva um animal não humano ou que simule certas formas
anatômicas, deveria ser aceita para a aquisição
de técnicas básicas como sutura, alguns aspectos de
manipulação de tecidos e outros. Isso pode incluir
tábuas para treinamento de pontos ou dispositivos mecânicos
similares, especialmente quando combinados com informações
visuais como fotografias ou vídeos, para serem usados em
situações quando a supervisão pessoal
seja inconveniente. Modelos simulando vários órgãos
também têm mostrado ser praticáveis na preparação
dos estudantes para um paciente real.(3,5,6,7,8). Um cadáver
tanto pode suprir a necessidade de se aprender Anatomia, quanto
a de treinamento cirúrgico. Já há evidências
de que os estudantes que treinam em cadáveres desenvolvem
a mesma competência e capacidade que aqueles que usam
animais vivos . (2, 11, 14)”
Deveria ser óbvio
que a fonte do cadáver é importante, quando nos propormos
às alternativas por razões éticas ou morais.
Não deveríamos usar cadáveres de animais vindos
de abrigos, por exemplo, se nos opomos a usá-los quando estao
vivos, mesmo que os procedimentos sejam terminais (cirurgia onde
o animal nao sobrevive) o que, portanto, resultaria na mesma
consequência para o animal (morte).
É difícil
o aprimoramento técnico na manipulação de tecido
em hemostase e tecido crítico a não ser que se use
o animal vivo. Uma maneira de se conseguir isso é usar
pacientes que precisem de cirurgia de fato, sob severa supervisão
de um cirurgão mestre. (9) O envolvimento incial do
estudante deve ser limitado a tarefas simples como incisão
na pele ou sutura. Quando a técnica do aluno for melhorando,
ele pode ir aumentando gradativamente o nível de envolvimento,
até que esteja apto a fazer os procedimentos mais comuns
sem ajuda. Isso significaria mais trabalho por parte dos que estão
envolvidos em ensinar treino cirúrgico. Em adição
a isso seria desejável, porém não necessário,
aumentar a parte clínica do currículo cuja atual média
é de menos de um ano, para um período mais longo,
para que fosse crescente a participacão dos alunos em cirurgia
clínica. Qualquer "desvantagem" que possa ser considerada
em relação a esse programa, deveria ser vista num
contexto onde o mesmo ajudaria animais não humanos que precisassem
de cirurgia e seria eticamente defensável e menos insensível
para os estudantes.
Uma alternativa poderia
ser o uso de pacientes morrendo de câncer ou outra situação
sem esperança. Isto não é, em princípio,
muito diferente de desejar os orgãos de alguém para
uso depois de sua morte. Após obter permissão do cliente,
o paciente seria anestesiado profundamente. Os varios procedimentos
seriam feitos e então o paciente seria eutanasiado
sem que se permite que ele se recuperasse da anestesia. Deve ser
claro que isto não é diferente em qualquer sentido
da maneira como é feito com animais saudáveis que
são mortos posteriormente. Cuidados pós operatórios
podem ser desenvolvidos em qualquer paciente, incluindo aqueles
que necessitaram de cirurgia recentemente.
Outra alternativa que
não só proveria experiência cirúrgica
para os estudantes, como também daria a eles experiência
em cuidar de animais após a cirurgia, seria um trabalho cooperativo
com abrigos de animais (*e canis municipais). Através de
um sistema chamado " transferência benevolente", criado
pela Michigan Humane Society, animais potencialmente adotáveis
seriam transferidos de um asilo local para uma faculdade de medicina
veterinária e atendidos pelos estudantes. Exames físicos,
procedimenteos de diagnósticos e tratamentos, seriam submetidos
pelos estudantes, com supervisão de um veterinário
experiente. Os animais que ainda não tivessem sido
esterilizados, o seriam. Depois que os animais tivessem se recuperado
e fosse considerado seguro para eles deixarem o hospital, seriam,
então, tranferidos de volta para o abrigo. Nas limitadas
situações nas quais isso foi feito, o número
de adoçõess desses animais apresentou-se alto. Assim
como programas usando pacientes que já têm um guardião
humano, esse programa beneficiaria a todos. O aspecto da castração
de animais desse programa, agora faz parte do currículo básico
da Universidade Estadual de Washington (Washington State University
) e da Universidade da California (University of California).
A AVMA - American Veterinary
Medical Association, que é responsável pelo crédito
das escolas de medicina veterinária neste País, não
dita a maneira como a cirurgia é ensinada. Esta consideração
reside primariamente em assegurar que os estudantes sejam expostos
a números suficientes de pacientes, com o objetivo de adquirir
uma base experimental que lhes proverá o aprendizado continuado
após a formatura. Conforme mencionado, eles creditaram ao
menos uma escola que não prejudica ou mata animais não-humanos
em seus programas. Ainda que às vezes usados como razão
para rejeitar as alternativas, pode-se ver que qualquer argumentação
quanto aos problemas de crédito do AVMA é vago.
Como a maioria das escolas
de medicina veterinaria americanas usa cães e gatos vindos
de abrigos, é apropriado se endereçar essa questão
no que diz respeito ao treino cirúrgico. O pensamento que
impera é que já que esses cães e gatos serão
mortos de qualquer maneira, por que não utilzá-los
num contexto onde a morte deles tenha um significado? Se isso fosse
tão simples, seria ilógico discutir contra . Há,
entretanto, muitos fatores que fazem do uso contínuo
de animais de abrigos para treino cirúrgico, um problema,
sem considerar que os animais, na verdade, teriam sido mortos no
mesmo dia em que se realizaria o laboratório de cirurgia.
Uma das razões
mais fortes para não se usar animais de abrigos ou canis
públicos é que isso institucionaliza nossa dependência
dessa fonte , que deveria diminuir e que todos deveriam estar se
esforçando para prevenir.Todos hão de concordar que
a superpopulacao de gatos e cães, com a presenca maciça
de individuos excedentes, é uma doenca social por causa
da irresponsabilidade humana.Se, entretanto, manter animais em abrigos
e canis é necessário para lecionar, é improvável
que se direcione esforços para acabar com essa situação.
O conflito de interesses poderia ser muito grande.
Outra razão forte
para se interromper o uso de animais abandonados é que esse
uso provoca confusão e insensibilidade nos estudantes e no
corpo docente. Não há diferenças morais relevantes
entre os cães que estão nos abrigos e canis municipais
e aqueles que possuem um guardião humano. Cães
de ambos os grupos têm a capacidade de sofrer e de gozar a
vida da mesma forma. O argumento de muitos que apoiam o uso de animais
derivados dessas fontes de que no fim "esses animais vão
morrer de qualquer jeito", ignora totalmente o princípio
da
questão. Os veterinários
deveriam ter a mais alta sensibilidade pela vida não humana
e deveriam cultivar e incentivar a reverência pela vida naqueles
que aspiram a se tornar veterinários. Ver e usar animais
como uma simples ferramenta sem nenhuma consideração
por suas vidas é a antítese desse princípio.
Outra consideração
é o stress causado nos cães e gatos durante o transporte
do abrigo ou canil até a escola.Embora isso nao seja muito
de ser observado por humanos, é necessário que nos
projetemos em outras situações com animais. Já
tendo sido capturado e transportado para um lugar estranho, por
um estranho, ser transportado mais uma vez, por estranhos, indubitavelmente
causa stress no animal. Os animais em questão não
sabem, como um humano observador saberia, que a viagem acaba. Se
isso estivesse sendo feito pelo bem desses animais, como
no caso da transferência
benevolente, alguém discutiria que qualquer strees adicional
excederia em importância pela perspectiva de uma longa vida
em um bom lar. Entretanto, se preocupar com stress desses pode parecer
"desperdicio" no que é considerado melhor para o animal,
quando a morte é o destino deles.
Por fim, é um
pobre argumento se discutir que os animais derivados de "depósitos
de animais" são " marcados para morrer" . Somente os cães
mais sociáveis e dóceis são escolhidos para
uso em laboratório cirúrgico.Esses indivíduos
também teriam altas probabilidades de serem adotados se existissem
recursos disponíveis para mantê-los à espera
de adoção por um período mais longo. Dizer,
portanto, que esses animais iriam morrer de qualquer maneira, ignora
o fato de que sua sentenca é pesadamente imposta por considerações
financeiras e logísticas.A situação piora quando
há uma instituição pronta e interessada em
comprar em esses animais.
Para concluir, não
há razões pedagógicas para que animais não
humanos tenham que passar por uma desnecessária cirurgia
seguida de morte, para se ensinar os principios de cirurgia para
estudantes de medicina veterinaria ou outras. Alternativas humanitárias
estão disponíveis e requerem apenas uma mudança
de mentalidade para a sua viabilizacao (4). Legalmente, estudantes
não podem ser forçados a ferir ou matar animais não
humanos como parte de sua educação. Ha amplo precedente
para isso. Mas vai requerer, entretanto, esforcos contínuos
por
parte dos estudantes
no sentido de persuadir os professores a providenciarem um
programa alternativo nas escolas. Isso pode ser muito intimidante.
Ganhe coragem,entretanto, no fato de que nada que os professores
possam fazer de ruim pra você, será pior do que o que
eles esperam que vc faça aos animais.
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**nota do tradutor -
Nos Estados Unidos, onde vive o autor do texto, a palavra Shelter
é usada para definir abrigos para onde se leva animais abandonados,
seja por entidades de proteção aos animais , seja
pelas prefeituras. Com raríssimas excessões, em ambos
os animais ficam por um tempo e se não são adotados,
são sacrificados.
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