Milan Kundera - "A
Insustentável Leveza do Ser", 1983
"A verdadeira bondade
do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda
a liberdade, em relação àqueles que não
representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade
(o mais radical, num nível tão profundo que
escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles
que estão à nossa mercê: os animais. É
aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental
da qual decorrem todas as outras: " o poder divino."
" No começo do
Gênese está escrito que Deus criou o homem para
reinar sobre os pássaros, os peixes e os animais. É
claro, o Gênese foi escrito por um homem, e não por
um cavalo. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem
reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável
que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou
da vaca e do cavalo" Trocando de lugar com os animais: "Esse direito
[o de matar um veado ou uma vaca] nos parece natural porque
somos nós que estamos no alto da hierarquia. Mas bastaria
que um terceiro entrasse no jogo, por exemplo, um visitante de
outro planeta a quem Deus tivesse dito:'Tú reinarás
sobre as criaturas de todas as outras estrelas', para que
toda a evidência do Gênese fosse posta em dúvida."
"O homem atrelado à
carroça de um marciano - eventualmente grelhado no espeto
por um visitante da Via-Láctea - talvez se lembrasse
da costeleta de vitela que tinha o hábito de cortar em seu
prato. Pediria (tarde demais) desculpas à vaca" Críticando
Descartes: "Descartes deu o passo decisivo: fez o homem 'maître
et propriétaire de la nature'. Que seja precisamente ele
quem nega de maneira categórica que os animais tenham alma,
eis aí uma enorme coincidência. O homem é
senhor e proprietário, enquanto o animal, diz Descartes,
não passa de um autômato, uma máquina animada,
uma machina animata. Quando um animal geme, não é
uma queixa, é apenas o ranger de um mecanismo que funciona
mal. Quando a roda de uma charrete range, isso não quer dizer
que a charrete sofra, mas apenas que ela não está
lubrificada. Devemos interpretar da mesma maneira os gemidos dos
animais, e é inútil lamentar o destino de um
cachorro que é dissecado vivo num laboratório"
"Nietzsche
está saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um
cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se
aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço, e
sob o olhar do cocheiro, explode em soluços. Isso aconteceu
em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado
dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse momento
que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, é
justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo.
Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão, por Descartes.
Sua loucura (portanto seu divórcio da humanidade) começa
no instante em que chora sobre o cavalo"
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