Matéria publicada
em " La
Insignia"
em 23/12/02
por Felipe
A. P. L. Costa (*)
O
Rio Grande do Sul é o único estado brasileiro onde
a caça esportiva de animais selvagens nativos tem amparo
legal. "Caça esportiva" é, na verdade,
um eufemismo. No Brasil, como de resto em qualquer outro país
do mundo, a prática em questão poderia ser melhor
descrita como uma interação entre dois animais,
mediada por uma arma de fogo: de um lado, um animal"racional"
-- quase sempre um macho, bem alimentado, mas em geral com distúrbios
ou disfunções sexuais --, que aponta e dispara contra
um animal "irracional" -- muitas vezes, uma fêmea
grávida, esfomeada ou ferida. O sadismo e o grau de assimetria
envolvidos nesse tipo de coisa não são difíceis
de flagrar.
Sai
ano, entra ano, e a temporada de caça gaúcha é
anunciada pela grande imprensa brasileira com tons de gestão
ambiental exemplar; algo como "os gaúchos caçam
porque planejam, controlam e protegem". Isso, no entanto,
não corresponde muito bemà verdade; em termos de
proteção ambiental, por exemplo, o Rio Grande do
Sul é um dos estados mais atrasados do país. Senão,
vejamos:
1)
Com apenas 0,55% de sua área territorial protegida por
reservas e parques federais e estaduais, o Rio Grande do Sul ocupa
apenas a vigésima-primeira posição no "ranking
verde" do Brasil (26 estados mais o Distrito Federal), sendo
o último colocado entre os estados das regiões Sul
e Sudeste [1].
2)
Nos últimos 20 anos, enquanto outros estados trataram de
aumentar em número e tamanho as suas reservas e parques,
os governantes gaúcho pouco ou nada fizeram para criar
e implantar novas unidades de conservação. E a julgar
pelo tamanho de uma das últimas delas -- a Reserva Biológica
da Mata Paludosa, criada como compensação em outubro
de 1998, com apenas 113 ha e ainda assim divididos em duas parcelas
--, o assunto não parece despertar tanto interesse assim.
(A seu favor, é bem verdade, os governantes gaúchos
poderiam argumentar que nos últimos anos algumas medidas
positivas foram adotadas, incluindo o aparente desmantelamento
da equipe de guardas-caçadores que agiam no Parque Estadual
do Turvo, no noroeste do estado, e a implantação
do Parque Estadual de Itapuã, com quase 30 anos de atraso
desde a sua criação.)
3)
O Rio Grande do Sul é campeão (seguido de perto
pelos estados de Minas Gerais e da Bahia) em unidades de conservação
fantasmas -- isto é, reservas e parques que não
existem mais ou que nunca existiram, embora apareçam em
listas oficiais e, assim, de um jeito ou de outro, contribuam
para elevar artificialmente os índices de proteção.
Os parques estaduais do Ibitiriá e do Podocarpus, por exemplo,
são fantasmas, ainda que apareçam em listas publicadas
pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis) e pelo IBGE (Instituto Brasileiro
de Geografia e Estatística) [2].
4)
O Campo Limpo, um dos cinco grandes biomas terrestres brasileiros
e que abrange principalmente o Rio Grande do Sul [3], está
virtualmente desprotegido e corre o risco de desaparecer. Em certas
áreas do sudoeste gaúcho, por exemplo, a vegetação
original já desapareceu por completo e em seu lugar prosperam
os "campos de areia". A única unidade de conservação
existente nessa região, a Reserva Biológica de Ibirapuitã,
em Alegrete, é pequena (351 ha) e tem sido mal cuidada.
Não
bastasse isso, até bem pouco tempo atrás, esses
e outros problemas semelhantes eram tratados pelo Departamento
de Recursos Naturais Renováveis, uma repartição
da Secretaria da Agricultura e Abastecimento; foi só a
partir de 1999 que o estado finalmente passou a contar também
com uma Secretaria de Meio Ambiente. Por si só, no entanto,
a criação de uma nova secretaria não vai
melhorar a situação: para isso, é necessário
que o governo estadual mostre um mínimo de interesse, empenho
e determinação.
Bala
na agulha
Determinação, aliás, é o que não
tem faltado aos empresários brasileiros do setor de armas
de fogo, como na mobilização semi-permanente em
que eles se encontram contra o projeto de lei federal que pretendia
inibir o comércio e a venda de armas e munição
-- cujos principais fabricantes, aliás, estão concentrados
justamente no Rio Grande do Sul. Essa gente, com licença
do trocadilho, tem bala na agulha e não desperdiça
munição.
Os
empresários do bangue-bangue, ao que parece, começaram
a ver na caça esportiva, mais do que nunca, um filão
a ser explorado. Quer dizer, a coisa toda funcionaria mais ou
menos assim: "Tudo bem, faz de conta então que a venda
de armas de fogo está mesmo proibida no Brasil; nesse caso,
como uma compensação, o governo federal autoriza
a implantação de parques de caça esportiva
em regiões vocacionadas para tal atividade". Na imprensa,
frases como essa vêm acompanhadas deargumentos mais ou menos
nebulosos, cujo o objetivo é tentar convencer o leitor
mal informado dos supostos benefícios econômicos
da caça; para isso, são mencionadas estatísticas
(quase sempre confusas e fora de contexto) sobre o volume de dinheiro
e o número de empregos que a indústria da caça
esportiva movimenta em outros países, em particular nos
Estados Unidos [4].
Mais
recentemente, com a ajuda de um ou outro técnico, também
virou moda agregar a toda essa ladainha econômica, um discurso,
digamos, ecológico. Os argumentos nesse caso são
do tipo: o efetivo populacional de algumas espécies --
notadamente nas tais regiões referidas como vocacionadas
para a prática da caça -- estaria em patamares bem
acima do tamanho natural. Esse seria o caso do jacaré-do-pantanal,
e também de algumas aves e mamíferos, como as capivaras
[5]. Nosúltimos dias, por exemplo, ganhou destaque a proposta
defendida por técnicos do CPAP (Centro de Pesquisa Agropecuária
do Pantanal), uma das unidades de pesquisa da EMBRAPA (Empresa
Brasileira de Pesquisa Agropecuária), que gostariam de
ver liberada a caça, não só de jacarés-do-pantanal,
no próprio Pantanal mato-grossense, mas também de
búfalos, na Reserva Biológica do Guaporé
(RO) [6], onde esses animais exóticos foram deliberadamente
introduzidos.
Não
sei se idéias como essas são frutos de ócio
excessivo, do oportunismo de alguém ou mesmo da crise em
que a EMBRAPA está mergulhada; em todo o caso, os advogados
dessas propostas deveriam apresentar argumentos minimamente consistentes
-- chavões grosseiros e puídos, do tipo "a
caça esportiva vai manter sob controle o efetivo populacional
das espécies caçadas","a caça vai
ser um incentivo ao desenvolvimento da região" ou,
ainda, "a exploração extrativa das espécies
caçadas é uma opção econômica
e ecologicamente sustentável" são, para não
dizer outra coisa, argumentos frágeis e insustentáveis
[7].
Sádico
troféu
Pergunte
a um caçador esportivo (clandestino ou aposentado) o que
é exatamente um "troféu de caça"?
Se tiver chance, pergunte também qual desses representaria
para ele o troféu mais valioso: a carcaça de um
tatu, o couro de um jacaré ou a pele de uma onça?
Tenho cá comigo que a maioria -- ou melhor, a grande maioria
-- escolheria a última opção. E existem boas
razões para isso, como a raridade natural do animal e os
riscos associados à empreitada. No fim das contas, penso
que aquele caçador autorizado a abater patos, marrecos
e jacarés às dúzias poderá, sempre
que tiver chance, abandonar tudo isso, desviando a mira de sua
arma para troféus de caça mais valiosos -- pois
sabidamente muito mais raros e ferozes --, como aves de rapina
(gaviões, por exemplo) e grandes felinos.
Por
definição, caçadores esportivos caçam
por esporte (ou seria por ócio excessivo?); eles não
estão matando nenhum dragão em defesa própria
ou para salvar a princesa prometida, nem mesmo vão aproveitar
a carne da presa para se alimentar ou a sua pele para vestir.
Tudo se resume a uma trama sádica e assimétrica,
na qual as chances de fuga da vítima são nulas ou
extremamente reduzidas.
Notas
(*) Biólogo.
[1] Costa, F. A. P. L. 1998. Um inventário 'verde' para
o Brasil. Ciência Hoje 143: 68-71.
[2] Ver, por exemplo, Bruck, E. C.; Freire, A. M. V. & Lima,
M. F. 1995. Unidades de conservação do Brasil. Cadastramento
e vegetação: 1991-1994. Brasília, Instituto
Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis;
e IBGE. 1997. Anuário estatístico do Brasil, vol.
56: 1996. RJ, Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
[3] IBGE. 1993. Mapa de vegetação do Brasil. RJ,
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
[4] Um exemplo recente de matéria obscura sobre caça,
publicada na imprensa brasileira, é "Matadores de
Luxo", que apareceu na edição No. 221, de 12
de agosto de 2002, da revista Época.
[5] Mourão, G. 1999. Fauna silvestre: proteção
demais atrapalha. Ciência Hoje 158: 36-40
[6] Quando o assunto é a Reserva Biológica do Guaporé,
o governo federal não economiza nas barbeiragens -- ver,
por exemplo, Multiplicando terras em Guaporé. Sobre o CPAP
da EMBRAPA, ver o sítio http://www.cpap.embrapa.br.
[7] Para argumentos contra a viabilidade econômica do extrativismo
em geral, ver Homma, A. K. O. 2000. Amazônia: os limites
da opção extrativa. Ciência Hoje 159: 70-73.
Para uma introdução ao problema geral dos impactos
negativos da caça em hábitats naturais nos Neotrópicos,
ver, por exemplo, Redford, K. H. & Robinson, J. G. 1987. The
game of choice: patterns of Indian and colonist hunting in the
Neotropics. American Anthropologist 89: 650-667; Redford, K. H.
1992. The empty forest. BioScience 42: 412-422; e Wright, S. J.
& outros 5 co-autores. 2000. Poachers alter mammal abundance,
seed dispersal, and seed predation in a Neotropical forest. Conservation
Biology 14: 227-239.
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